Beatriz Magalhães Castro
(UnB; GT RIdIM-Brasil DF)
A imagem do negro na Primeira República: Iconografia musical e as representações da questão negra no Brasil
Durante a Primeira República (1889-1930), a imagem do negro no Brasil foi profundamente moldada por discursos políticos e ideológicos que buscavam apagar ou redefinir sua presença na sociedade. A política de branqueamento, promovida tanto pelo Estado quanto por setores intelectuais, operava na esfera demográfica, cultural e iconográfica, contribuindo para a construção de uma falsa ideia de democracia racial. A mestiçagem, ao mesmo tempo em que era exaltada como traço distintivo da identidade nacional, também era utilizada como mecanismo de diluição das matrizes africanas, reforçando um imaginário visual e musical que marginalizava a cultura negra enquanto apropriava seus elementos mais palatáveis para a formação de uma identidade urbana brasileira. No campo da iconografia musical, essa dinâmica se manifesta de maneira marcante na ascensão do choro e do samba como símbolos da música urbana do período. O choro, inicialmente associado às classes médias e aos músicos mestiços que dominavam os espaços da boemia carioca, tornou-se uma das primeiras expressões reconhecidas da musicalidade nacional. Ao mesmo tempo, o samba, nascido nas camadas populares e profundamente ligado às comunidades negras, enfrentava tanto repressão quanto uma progressiva reconfiguração estética e simbólica, à medida que ganhava espaço nos meios urbanos e passava por processos de embranquecimento simbólico e musical. As representações iconográficas desses gêneros musicais surgem nos periódicos ilustrados, partituras, fotografias e caricaturas da época, evidenciando tanto a presença quanto a estigmatização do negro no imaginário nacional, revelando ambiguidades: de um lado, retratado de forma estereotipada, de outro, como elemento incontornável na cena musical influenciando as narrativas sobre a brasilidade. O estudo dessas imagens permite compreender como os discursos musicais e iconográficos se entrelaçaram na conformação de uma identidade nacional que, ao mesmo tempo em que incorporava elementos da cultura negra, os ressignificava dentro de um projeto de modernização e controle social. Ao explorar essas questões a partir de um corpus iconográfico que inclui ilustrações de revistas como "O Malho" e "Careta", fotografias de músicos da época, capas de partituras e outros documentos visuais que dialogam com as políticas raciais do período, permite investigar como a imagem do negro foi construída, manipulada e ressignificada na cultura visual da Primeira República, contribuindo para um debate mais amplo sobre a relação entre iconografia musical, política racial e a formação do imaginário nacional no Brasil.
Breve biografia
Obteve o Premier Prix na Classe de Flauta - Conservatoire National Supérieur de Musique de Paris, e graduação nas Classes de História da Música e Análise naquele conservatório (1985), Mestrado em Música (Master of Musical Arts, MMA) - The Juilliard School of Music (1987) e doutorado em Música (Doctor of Musical Arts, DMA) - The Juilliard School of Music (1992). Realizou estudos de pós-doutoramento na Universidade Nova de Lisboa / Biblioteca Nacional de Portugal (2002-2008). Atualmente é professor associado III da Universidade de Brasília, foi Editora da Revista "Música em Contexto" (2007-2017) e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação Música em Contexto da UnB (2004-2007; 2014-2017), o qual fundou e atuou como primeira Coordenadora. Tem experiência na área de Artes/Música, com ênfase em Musicologia e Performing Practices, atuando principalmente nos seguintes temas: música instrumental, difusão do classicismo musical, bibliotecas digitais, repertórios e fontes internacionais para a música Ibero-Americana, tradição e inovação na Música Brasileira Popular. Entre 2010-2016 promoveu a criação e atuou como tutora do Grupo-PET "Música em Etnografia" no Programa de Educação Tutorial (PET-MEC), no mapeamento das práticas musicais do DF e RIDE. É Coordenadora do Comitê RILM-Brasil, Membro dos Comitês RISM-Brasil, Presidente da Associação Brasileira de Musicologia (ABMUS), Presidente da Seção Brasil da Associação Internacional de Bibliotecas, Arquivos e Centros de Documentação Musical (IAML) a qual fundou e coordenou desde 2009, formalizando-a com a aprovação na Assembléia Geral da IAML, Antuérpia, Julho de 2014. Membro da Sociedade Internacional de Musicologia (IMS) e da Associação Internacional de Bibliotecas, Arquivos e Centros de Documentação Musical (IAML). Desde 2018 é membro da Comission Mixte do RISM Internacional representando a IAML. Atualmente desenvolve monografia resultante da pesquisa como recipiente do Prêmio Bolsa de Pesquisa do Ministério da Cultura / Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, edição 2009-2010, focado sobre a Coleção Teresa Christina Maria e a prática da música instrumental durante os I e II Reinados. Coordena o Projeto Historiografia da Música Brasileira e desenvolve mapeamento de ferramentas musicológicas para a pesquisa em música por meio de tecnologias da informação e comunicação. Desde 2013 participa no Grupo de Trabalho do RIdIM-Brasil no Distrito Federal.















